Perto de tudo – e de todos

A coordenadora da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Valeska Peres Pinto, é mulher de estilo. Entre outras características, jamais perde a oportunidade de dizer o que pensa; melhor, dizer e defender. Foi o que aconteceu durante a apresentação dos resultados da consulta popular do plano SP 2040, em meados de janeiro passado. Quando à plateia foi dada a possibilidade de colocar questões para os especialistas, Valeska pediu licença para ir direto ao ponto: “A experiência de um plano de longa duração é importante, mas ele só terá validade junto de instrumentos de gestão… Como isso vai acontecer?”

Naturalmente, a questão fomentou a discussão, até porque se trata de tema crucial para o êxito do plano. Gaúcha de Porto Alegre que ‘adotou’ São Paulo e aqui se instalou desde 1974, Valeska já trabalhou na Companhia do Metropolitano de São Paulo, nas prefeituras de Diadema e de Campos de Jordão (em ambas, na área de planejamento urbano) e na Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. Arquiteta e urbanista de formação, sua visão sobre a metrópole paulistana tem a acuidade de um raio X. Confirme a seguir.

SP 2040: Sua trajetória profissional indica experiência em transporte urbano… Conseguiria explicar a razão de ser o trânsito o maior foco de angústia do paulistano?

Valeska: Aqui, na ANTP, a falta de mobilidade e acessibilidade paulistana é uma questão que já se discute desde os anos 90, vim para cá exatamente para participar da Comissão de Circulação e Urbanismo… Havia então um grande esforço de entender por que as pessoas “viajam” tanto – se elas vivessem numa ‘aldeia’, onde tudo estaria ao alcance da marcha a pé, não haveria problema algum, certo? Mas, infelizmente, as nossas cidades aumentaram e continuam a aumentar seu raio com o passar do tempo, o que nos faz hoje viver em uma cidade metropolitana… É bom lembrar que foi preciso um século para a cidade de São Paulo, quando de sua fundação, se expandir do Pátio do Colégio, ultrapassar o córrego sobre o qual foi construído o Viaduto do Chá para alcançar a Praça da República, um século! Desde então o raio de São Paulo cresceu 60 vezes! Falamos de um modelo urbano de expansão territorial que foi potencializado pelo automóvel, fenômeno não apenas do Brasil, mas sim do mundo inteiro.

SP 2040: O que levou São Paulo a se ‘espalhar’ dessa maneira?

Valeska: Há dois fatores que influenciam as decisões sobre mobilidade e não estão na sua governança. O primeiro é o custo do solo urbano, que afeta os estoques e os negócios da terra tanto pelo setor público quanto pelo setor imobiliário privado – é o custo da terra que leva muita gente a aceitar viver 30 km longe do centro para ter acesso à terra urbanizada… E quem não tem renda necessária para se manter nessa terra é expulso para mais longe. Veja, nos anos 70 e 80, ocorreu a construção de grandes conjuntos residenciais populares na Zona Leste, até então área rural. Qual a razão? A terra era barata e viabilizava a construção de moradias ao alcance da renda da classe média baixa.

O segundo fator é o posicionamento das instalações que geram emprego, ou seja, a criação dos pólos industriais. Nos anos 70 e 80, havia uma fixação, no planejamento urbano do País, de criar zonas, zoneamento era a palavra de ordem – e, com isso, deixamos de lado a cidade orgânica (com moradia, emprego, escola e banco próximos) para a cidade setorizada, da qual Brasília é o sonho de cidade, onde uma pessoa trabalha num lugar, mora em outro e se diverte em um terceiro – e o carro serve para levar a todos esses lugares. O planejamento moderno urbano fez, na verdade, uma aliança estratégica com o uso do automóvel.

SP 2040: Se agora é possível adquirir um carro em dezenas de prestações, a questão de se locomover só tende a piorar, não é?

Valeska: Tende a piorar antes de melhorar, terá de passar por isso… Nada indica que o processo de “periferização” vai ser detido, ao contrário: no caso de São Paulo, o que acontece é a construção da macrometrópole ante a criação de inúmeras regiões metropolitanas (S. José dos Campos, Jundiaí etc.), ou seja, estamos caminhando para viver na metrópole muito maior do que a atual, onde São Paulo será o fulcro central. Nada detém esse processo. Mais: a economia está favorecendo que as pessoas com mais dinheiro possam viver longe – Valinhos, Jundiaí, Vinhedo, por exemplo – para vir trabalhar na Berrini, por exemplo.

SP 2040: Para organizar esse estado de coisas inevitável, o que precisa ser feito em futuro próximo?

Valeska: Se acelerarmos a construção da rede estratégica de transportes públicos (metrô, trem, corredor de ônibus), conseguiremos organizar bastante essa área… Acontece que o ritmo em que essas obras são planejadas, projetadas, licenciadas e executadas ainda é lento em relação à dinâmica da economia. E os próximos dez anos serão cruciais! Se a economia se mantiver aquecida no ritmo atual de crescimento de 3% a 4%, poderemos usar a janela demográfica da próxima década (a previsão é de que a população pare de crescer…) de modo a fazer essa estrutura coordenada de transportes corresponder à demanda… Agora, o centro de São Paulo precisa ser ‘repovoado’!

SP 2040: O morador do centro teria um perfil específico?

Valeska: A meu ver, é aquele que se interessa em andar a pé ou de bicicleta, com uma exigência diferente de mobilidade… Ou seja, ter o automóvel e usá-lo a toda hora não faz parte do estilo de vida dele. Porque a família que vive de modo a ter carro para cada um dos seus integrantes já fez uma opção, ela vive em uma casa com vaga para cada um dos seus automóveis… Assim, a pergunta que se faz é quem pode viver no centro histórico da cidade – só que esse futuro morador precisa de algum modo ser beneficiado: morar, no centro, ainda é muito caro.

SP 2040: Qual é sua apreciação sobre o plano estratégico de São Paulo?

Valeska: Tudo o que é construção de longo prazo pode se tornar um exercício de futurologia, infelizmente. A única garantia é a sociedade construir instrumentos de gestão de um plano como o SP 2040. Caso contrário, ele pode ser varrido sumariamente da nossa agenda de compromissos. Acho importante a sua existência, mas ele precisa vir acompanhado de instrumentos de gestão que comprometam o presente. São obrigatórios, por exemplo, mecanismos de revisão desse desenho futuro – um cronograma de atividades para avaliar, a cada cinco anos, por exemplo, em que pé o plano está, seja por meio de plebiscito ou de consulta popular, mantendo viva a sua atualização. Também é preciso comprometer a gestão: queremos terminar a rede integrada de transporte, queremos investir na construção dos corredores de ônibus, vamos fazer disso uma prioridade, certo? Será então necessário determinar o investimento anual, qual a percentagem da arrecadação que terá esse direcionamento – e a sociedade cobrar sua execução. Se quisermos aproximar trabalho de moradia, podemos fazer foco na Zona Leste e aumentar as opções de emprego, escola e saúde na região: diariamente, ela expulsa o equivalente à população do Uruguai para ir trabalhar, são 2,8 milhões de pessoas que saem todas as manhãs de casa para chegar ao trabalho! E isso não devia acontecer… Em transporte, entenda, temos de agir sobre a oferta e a demanda – e hoje só somos capazes de aumentar a oferta, disponibilizando mais carro, mais viaduto, mais rua etc.

SP 2040: Consegue vislumbrar um futuro melhor para a cidade?

Valeska: Claro, até porque as pessoas estão mais bem informadas, mais conscientes, elas se movem mais… Sobretudo, elas não têm mais paciência de simplesmente aguardar que o governo atenda suas necessidades. A questão ambiental urbana é a mais importante dos próximos anos – e a consciência de sua gravidade começa finalmente a ser entendida e ganhar alcance entre os moradores de São Paulo, por exemplo. Porque o Brasil é cada vez mais urbano e a cidade, cada vez mais estratégica no dia a dia do País.

SP 2040: Como é a São Paulo que você gostaria de viver?

Valeska: A cidade que eu gostaria de viver é aquela que parasse de se expandir e mantivesse as pessoas próximas umas das outras, uma cidade de uso misto e sem ‘clusters’, ou seja, sem guetos de ricos ou pobres. Uma cidade capaz de recuperar o centro maravilhoso como é o de São Paulo. Agora, eu sei que não existe uma única cidade ideal – tem gente que não gosta de viver muito próximo do outro, assim como tem gente que gosta exatamente do contrário… Mas, isso não importa. Em minha opinião, enquanto existirem diferenças culturais e econômicas entre a nossa população, é preciso oferecer um pouco de cidade para todos – e com custos mais equalizados. Cidade diversificada é cidade melhor.

(Texto de Marion Frank; foto de Daniel Ramos)

 

 

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